Revolução Cultural
Cultura das Cidades


Textos de Paulo Cannabrava Filho*

América Latina pós
Consenso de Washington
Tecendo uma nova Cultura
Revolução Cultural
Início
Ética e Cidadania Petrodólares e o
capitalismo volátil
Do vicioso para
o virtuoso
Carregar arquivo PDF
 em português
O Ocaso do Império Bajar archivo PDF en español
O maior feito da política externa dos Estados Unidos foi a conquista do Brasil sem dar um só tiro Agenda cultural nas cidades – o local e o global – políticas públicas municipais - Arte e identidade cultural - Paz e reencantamento - Processos e espaços de participação - Preservação do patrimônio

Cultura nas cidades

No mundo acadêmico já se vê desentendimento entre o que é cultura urbana, cultura erudita, cultura popular, folclore, o que tem contribuído para a descaracterização do próprio conceito de cultura e para reforçar a desconstrução da identidade nacional.

Felizmente vem se impondo o conceito consagrado pela Unesco de que Cultura é o conjunto das características distintivas, espirituais e materiais, intelectuais e afetivas que caracterizam uma sociedade ou um grupo social. Ela engloba, além das artes e as letras os modos de vida, os direitos fundamentais ao ser humano, os sistemas de valores, as tradições e crenças.

No plano da enteléquia, tudo bem com esse conceito. Na prática, porém, a teoria é outra.

Nas décadas de 1960/70, chegou-se à compreensão de que cultura urbana é a cultura da mídia de massa. As discussões foram tão intensas, a constatação causou tal impacto que levou as Nações Unidas a criar uma comissão para estudar o assunto, tendo como relator Sean Mac Bride. De lá para cá, a situação relatada, revelando o monopólio e a manipulação psico-social exercida através dos meios de comunicação, piorou. Impôs-se a cultura da banalização. Troca-se o mérito pela fama, a ética pelo levar vantagem.

No Brasil, com certeza, piorou ainda mais que em qualquer outro lugar, pois é evidente a fragilidade de nossa identidade cultural, a nossa submissão aos desígnios da grande potência hegemônica.

É impressionante como se dá essa dominação sob qualquer prisma que se observe. Na área do áudio-visual, por exemplo, em que pese tanto talento e técnica de que dispomos, em nada conseguimos alterar o fato de que 90 por cento dos filmes projetados nos cinemas brasileiros têm origem em Hollywood. E que isso custa ao Tesouro Nacional nada menos que 700 milhões de dólares anuais. Quantos filmes se poderiam fazer aqui com esse dinheiro? Quantos engenheiros poderiam ser formados?

Nossas universidades, desvinculadas da sociedade e do processo histórico, não têm sido capazes de pensar com os pés em solo brasileiro. Estão sendo formados técnicos deixando de lado a formação de cidadãos. A doutrina imperial conseguiu de tal maneira condicionar o pensamento que o sonho de sucesso dos profissionais é o pós em Harvard, é um emprego numa instituição financeira. O Brasil não conta. O que conta é a renda.

Até para combater a miséria, o que se cria é renda. Há um atraso de mais de 20 anos na infra-estrutura e na produção industrial. O arroz-feijão está deixando de ser a dieta básica do brasileiro simplesmente porque a renda do trabalhador não alcança para comprá-lo. Importa-se feijão do México e dos Estados Unidos e, por outro lado, somos os maiores exportadores do mundo de soja, açúcar, álcool, de carne bovina e frango, de sucos cítricos e, ainda assim, temos mais de 50 milhões de pessoas que passam fome. Pode-se imaginar um absurdo maior que esse?

Claro que a ditadura militar ajudou a massificação da alienação ao massacrar as lideranças nacionais e submeter a mídia e todas as formas de manifestação da criatividade humana. Mas o estrago maior, sem dúvida, vem sendo perpetrado a partir da adoção de um modelo econômico e político que nos tem sido imposto como forma de dominação.

Foi Goebles, o gerente de comunicação de Hitler, quem muito antes de Mc Luan, Mattelart ou Mac Bride, expressou a constatação de que, mais poderosa que qualquer força militar é a força da comunicação. Com ela submetem-se populações, Nações e Estados sem confronto, sem sangue. E essa tarefa fica mais fácil quando há elites tradicionalmente submissas. Elites, ou mais precisamente, castas dominantes, que se consolidaram como tal através da ocupação predatória do território e da política do leva vantagem.

Ouvi ou li de um diplomata estadunidense, na Europa, que o maior feito da política externa dos Estados Unidos, acima mesmo das vitórias em todas as guerras, foi a conquista do Brasil sem dar um só tiro.

É preciso se insurgir contra isso. Felizmente vozes favoráveis a uma política de soberania nacional já podem ser ouvidas. Já se consegue até exercer uma política externa independente, guiada por interesses nacionais. Mas é pouco. No Congresso Nacional se está reestruturando a Frente Parlamentar Nacionalista e se começa a discutir a necessidade de um projeto nacional. Contudo, Isso ocorre sem qualquer repercussão e desarticulado dos partidos políticos e dos movimentos sociais. É preciso se insurgir contra isso.

Já pagamos US$ 400 bilhões
e ainda devemos US$ 220 bilhões
(clic aqui para ver o quadro da dívida)

É preciso livrar-se da ditadura do capital volátil. O país pode crescer a uma taxa razoável com investimentos da ordem de 12% do PIB. Nos melhores tempos, nossa poupança permitia investimentos em torno de 20% do PIB, o que representava altas taxas de desenvolvimento e oferta de emprego. Hoje, 12% do PIB é o que o país paga de juros. Em suma, com o nosso sacrifício estamos financiando o modo de vida da grande potência e suas guerras de conquistas. É preciso se insurgir contra isso.

É preciso um Projeto Nacional. É preciso que o país desenvolva sua própria estratégia de desenvolvimento integrado e auto-sustentado. Para chegar aí é preciso mobilizar toda a nação. É preciso uma verdadeira revolução cultural para que se resgate o verdadeiro pensar brasileiro.

Somos bons em diagnósticos, mas somos verdadeiros patifes na formulação de alternativas, principalmente na execução de políticas alternativas. A situação está propícia para a busca de alternativas e para construção de novos modelos de desenvolvimento. Em todo o mundo se está buscando essas alternativas. Nós vamos poder constatar isso em julho de 2004, quando se realiza, em São Paulo, a Conferência das Nações Unidas para o Comercio e o Desenvolvimento - a Unctad -, e o Fórum Cultural Mundial.

Estamos perdendo tempo precioso em um momento em que há condições subjetivas e objetivas para tomar outros caminhos na construção do desenvolvimento. E o desenvolvimento deve dar-se como conseqüência do desenvolvimento cultural. De não ser assim, perderemos a identidade e haverá decadência, degeneração social.

Patrimônio e Identidade.

O fortalecimento da identidade tem que ver com a preservação do patrimônio. Contudo, há que ter clareza de que patrimônio não é monumento, não é viver o passado. O patrimônio é argamassa com a qual se constrói a identidade. Patrimônio é vivo, é vida, língua, música... Patrimônio é físico, é histórico, é ideológico; é geográfico e ambiental, é território e paisagem; é artístico, tecnológico; patrimônio é, enfim, cultural.

O povo terá encontrado sua identidade cultural quando se sentir dono desse patrimônio, quando se sentir partícipe de sua preservação por entender que dela depende a qualidade de vida de seus descendentes, para não dizer a sobrevivência da vida em um país independente, capaz de proporcionar a todos os seus habitantes a plena realização como ser humano. Então sim, estaremos próximo do reencantamento sugerido pelo poeta, Hamilton Faria.

Diante dessa questão, ao se propor políticas culturais para cenários locais ou municipais, não se pode perder de vista que a cultura é o cenário. É preciso ter presente que a cultura é o motor para o desenvolvimento, e que o motor da cultura é a criatividade do povo em movimento. E o papel do Estado é o de colocar combustível nesse motor, ou seja, propiciar os recursos para o povo expandir sua criatividade.

Preservar a cultura local não significa isolar-se, mesmo porque não temos como nos livrar de nossa multiculturalidade. Como diz nosso amigo João Pimentel Neto, nem nossos coqueiros, nem nossos negros são originais. Nós somos essa nossa diversidade: branca-negra-india, pampa-caatinga, florestacerrado, concreto e areia-mar.

Eduardo Galeano, entendeu bem isso quando escreveu que Somos lo que hacemos para cambiar lo que somos. Creo en una identidad en movimiento, en una identidad viva. Creo mucho más en las identidades elegidas que en las identidades heredadas. Lo mejor que el mundo tiene es la cantidad de mundos que contiene. Para recuperar la universalidad de la condición humana, que es lo mejor que tenemos, hay que celebrar al mismo tiempo la diversidad de esa condición.

Nessa diversidade podemos ser nós mesmos. Na Bolívia e no Peru, onde trabalhei em projetos culturais, me qualificavam de latinoamericano ensamblado en Brasil. Não foi preciso perder minha identidade de brasileiro nascido embaixo de um pé de café às margens do rio das Onças para me sentir boliviano, ou peruano, ou argentino. Afinal, temos todos um passado e um destino comuns.

É preciso desprivatizar o Estado
para que volte a ser público

Os Estados, apesar da origem comum, às vezes se comportam de maneira diversa e até mesmo antagônica. Mas nós somos diferentes do Estado porque somos capazes de ver com os mesmos olhos o negro e o branco, o homem e a mulher. E o antagonismo entre o Estado e a Nação tem sido a rotina em nosso continente, porque o Estado foi montado como instrumento de dominação de uma elite predadora. É o estado que precisa ser desapropriado, melhor dizendo, desprivatizado, voltar a ser público, instrumento a serviço da nação.

Discutir propostas de políticas culturais, debater identidade nacional, pensar um projeto nacional, uma estratégia de desenvolvimento, tudo isso pode resultar em nada se não se pensar, se não se discutir, se não se formular propostas concretas que nos levem à democratização da comunicação.

Estas são questões que devem ser colhidas como bandeira dos fóruns de participação popular. Bandeiras para uma mobilização social em grande escala. Esse povo, com suas mobilizações, conquistou espaço democrático. Agora é preciso dar conteúdo a esse espaço.

Cultura de paz

A palavra paz, assim como a luta pela paz e pela bandeira nacionalista, tem sido historicamente satanizada, não só pela mídia, mas até nos meios acadêmicos.

O individualismo exacerbado pela globalização liberalizante é a negação de uma política de paz, assim como a imposição de hegemonias.

Falar em cultura de paz nos remete a uma reflexão sobre democracia, pois, esta é o alicerce principal para a construção da paz. Como vamos definir paz sem definir democracia? Eis aqui o grande desafio. Como vamos conquistar a paz sem construir a democracia? Qual é a democracia que queremos? Existe uma democracia igual a outra?

Para muitos, particularmente na nossa mídia e nas nossas escolas, o paradigma de democracia é aquela dos Estados Unidos. É essa a democracia que queremos? A democracia do macartismo, do sindicalismo reprimido, do big stick, da ku klux klan, da fraude eleitoral? Será que Martin Luther King achava que vivia numa democracia ideal? O que nos diriam dessa democracia os mártires de Chicago, as tecelãs carbonizadas de Nova York, os chicanos, os chilenos ou guatemaltecos, os cubanos? Será que alguém com cara de árabe se sentirá numa democracia ao viajar hoje para aquele país? Pois é essa a democracia que se vem utilizando como paradigma aqui, pois aqui como lá estão matando nossas lideranças.

Lemos nos jornais que os Estados Unidos elegeram seu atual presidente através de fraude. Fraude na contagem de votos ou fraude psicosocial? Em qualquer dos casos, uma farsa moral, tal como essa que foi o espetáculo da eleição do exterminador do futuro para governar a Califórnia.

Temos com que nos preocupar! Se não houver um alerta naquela sociedade de que o espetáculo é outro, ainda presenciaremos novos e horríveis holocaustos em nome da democracia e da defesa da paz. E parece que é esse tipo de fraude eleitoral, o espetáculo da eleição no lugar da escolha racional do candidato, que também vem sendo aperfeiçoada no nosso meio.

Então parece óbvio que devemos perder o medo de construir nosso próprio modelo de democracia. Não estamos sozinhos nisso. No mundo todo se está buscando esses novos caminhos. O desafio é traçar a linha de ação que nos leve à concretização de nossos objetivos e sonhos. Pois, como asseverou o mestre Paulo Freire "não se pode conceber a existência humana fora do sonho e da utopia".