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Petrodólares e o capital volátil


Textos de Paulo Cannabrava Filho*

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Os petrodólares em busca de
rendimento inundaram os bancos contribuindo para o desenvolvimento do capitalismo volátil de nossos dias
A família Bush é sócia da família Bin Laden na exploração de petróleo - No Iraque o petróleo é mais barato porque desde os tempos bíblicos está à flor da terra

Na primeira guerra do petróleo, no final dos anos 1960 e início da década de 1970, os países árabes infligiram espetacular derrota às grandes potências. Além de barrar a ofensiva de Israel na guerra do Golfo, nacionalizaram os poços de petróleo e passaram a vender o barril a preço justo. De menos de um dólar em três anos o petróleo chegou a US$ 14,00 o barril.

Praticamente todos os países membros da Opaep estavam envolvidos nisso. Da Líbia revolucionária de Kadaffi à monarquia retrógrada da Arábia Saudita.

As potências ocidentais tremeram. As balanças comerciais registraram déficits abissais. Os europeus sofreram de frio no inverno por falta de combustível para calefação. As montadoras estadunidenses encolheram as carrocerias e os motores dos automóveis.

O Terceiro Mundo exultou. Infligiu-se derrota a Israel e seus apoiadores sem dar um tiro. Viu-se, na prática, que aquilo que vinham discutindo como uma possibilidade nos foros inter-nacionais, podia concretizar-se. Quando, no início dos anos 1970, os Estados Unidos e a Grã Bretanha, os maiores prejudicados pelas nacionalizações, ameaçaram invadir os países árabes produtores de petróleo, a resposta saudita veio rápida. Se invadirem, explodiremos os poços. As potencias imperiais recuaram.

Vale a pena fazer uma reflexão sobre o que há de diferente entre esse episódio e o que ocorre nos dias de hoje no Oriente Médio. Nunca é o mesmo rio que passa por baixo da ponte.

Os países da Opaep passaram alguns anos ditando o preço do barril de petróleo e locupletando suas burras com dólares. Amealharam muitos bilhões. O que fizeram com tanto dinheiro além de colocar limusines Mercedes Benz nas frotas de táxis? Alguns desses governantes ainda hoje gastam fortunas maiores que o PIB de muitos países em uma noite numa mesa de roleta ou bacará em Mônaco ou Las Vegas. Mas, por maior que seja o esforço de um paiseco como os Emirados, ou monarquias como a saudita, o que se consegue gastar é pouco diante da avalanche de dólares.

Países com governos nacionalistas como o Iraque, Argélia, Líbia, Iêmen, e de certa forma também o Irã, escolheram outros caminhos que não os dos cassinos. O Iraque, por exemplo, investiu em armamento e em desenvolvimento. O Brasil, na época, cooperou e ganhou dinheiro construindo estradas de ferro e de rodagem na Mesopotâmia.

Com os excedentes de dólares os árabes começaram a comprar ativos fora de seus países. Compraram edifícios em Nova York, Chicago, Miami, ações de corporações transnacionais e aplicaram nas bolsas no mundo inteiro.

Os petrodólares, em busca de rendimento, inundaram os bancos. Como conseqüência, os bancos corriam atrás de onde aplicar esse dinheiro. Encontraram. Como a oferta de dólar era farta, baixaram os juros e alongaram os prazos.

Países do Terceiro Mundo, como o Brasil, acharam que poderiam financiar o desenvolvimento com recursos externos e, aproveitando a oferta, triplicaram, quadruplicaram suas dívidas. Essa euforia, no entanto, não duraria muito.

Paralelamente a esses fatos, ocorria no mundo uma grande revolução científica e tecnológica, dando origem a uma nova era do desenvolvimento, com base na convergência tecnológica – a informática, a comutação de dados em alta velocidade, telefonia, televisão, rádio, os satélites de comunicação, todos fundidos numa poderosa multimídia de alcance mundial.

A abundância de petrodólares e a facilidade nas comunicações fizeram a alegria dos especuladores financeiros do mundo inteiro. Como conse-qüência, aplicando seus dólares nos EUA, Europa e Japão, os árabes se tornaram sócios dos magnatas e das corporações das potencias ocidentais.

Arábia Saudita, os emires e sultões da Ásia Menor são hoje sócios dos capitalistas ocidentais, particularmente dos Estados Unidos. A família Bush, por exemplo, explora petróleo no oeste estadunidense em sociedade com o dinheiro da família Bin Laden.

Todo esse dinheiro girando sem qualquer controle nos Bancos serviu também para armar um grande bordel mundial, ficando difícil distinguir onde terminavam os interesses das potencias ocidentais e começavam os dos traficantes e toda sorte de bandidagem.

Ficaram de certa forma por fora dessa maracutaia o Iraque, a Líbia, a Argélia e o Irã. Esses países mantiveram o controle estatal sobre os recursos petrolíferos e se vincularam mais com a Europa que com os Estados Unidos.

Ocorre também que, apesar do contubérnio britânico-saudita-estadunidense, sócios da Aramco, a maior petroleira do mundo, os Estados Unidos foram perdendo a confiança na monarquia saudita.

O fato de a Arábia Saudita abrigar a Meca em seu território, vincula os sauditas ao mundo islâmico de forma perigosa para o Ocidente. Perigosa porque parece haver, entre muitos intelectuais a serviço do sistema, a certeza de que o islamismo ainda tem condições de continuar se expandindo e dentro dele, ampliando espaço, o fundamentalismo.

Os bancos e a convergência tecnológica favoreceram o desenvolvimento de uma nova categoria de capitalistas – os especuladores. Essa nova dinâmica deu origem a um capitalismo volátil, que privilegia a especulação e a renda em detrimento da produção e do bem estar social.

Ninguém escapou dos efeitos da onda especuladora. A mídia informou fartamente sobre a crise asiática, a crise mexicana, a crise russa, a crise Argentina, o efeito Orloff e que tais. Pouco se tem falado, no entanto, da crise nos Estados Unidos.

Processos industriais defasados, economia sem chance de retomar o ritmo de desenvolvimento necessário para manter o padrão de consumo. Bush, na semana anterior ao 11 de setembro, diante da resistência dos congressistas em aprovar seu projeto de guerra nas estrelas, deixou bem claro que não restaria outra alternativa para a recessão senão a guerra. Não tardou outra semana para declarar guerra ao Afeganistão.

De todos os países do Oriente do Mediterrâneo e da Ásia Central, o Iraque é o que extrai petróleo a mais baixo custo. É impressionante e até a Bíblia menciona o fato do petróleo verter à flor da terra na Mesopotâmia. Saddam Hussein, além de manter o controle estatal sobre os poços, a partir de 2000 deixou de cotizar o óleo pelo dólar passando a utilizar o Euro. E também a União Européia estava privilegiando a compra do óleo iraquiano. Sem dúvida um golpe na geopolítica estadunidense.