Revolução Cultural
O ocaso do Império


Textos de Paulo Cannabrava Filho*

América Latina pós
Consenso de Washington
Tecendo uma nova Cultura
Revolução Cultural
Cultura das Cidades
Ética e Cidadania Petrodólares e o
capitalismo volátil
Do vicioso para
o virtuoso
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Hegemonia já não faz mais sentido no mundo civilizado Quem realmente governa os
Estados Unidos?

O saque aos recursos naturais e ao mercado dos países periféricos tem sido a saída para os Impérios nos momentos de crise. Isso não é novidade desde os impérios anteriores a Roma.

Os estoques de minerais estratégicos nos Estados Unidos estão praticamente esgotados, particularmente os combustíveis fósseis. Está ficando cada dia mais difícil manter o modo de vida da população estadunidense com a enorme dependência externa, o dólar cada vez mais desvalorizado e os povos dos demais países do mundo tomando consciência sobre o dever de ser independentes.

São visíveis nos Estados Unidos as conseqüências dessa conjuntura. Concentração cada vez maior do capital, com a recíproca de crescimento da pobreza e da exclusão. Déficit cada vez maior na balança de pagamentos e dólar cada vez valendo menos. Deterioração social com 30 milhões de drogados e quase 3 milhões de presos.

A fragmentação da antiga União das Repúblicas Soviéticas não podia ter ocorrido em melhor momento para os Estados Unidos. Ao abrir um flanco numa das mais ricas zonas petroleiras, abriu também a oportunidade para o novo império ocupar espaços que antes nem podia pensar em ocupar. O Afeganistão e o Paquistão são estratégicos por estarem nas rotas de escoamento do petróleo e gás. Assim também a Síria, a Jordânia, Palestina e Israel.

Não é fácil manter esse controle num mundo conturbado e politizado no Oriente Médio e na Ásia Central. É preciso se impor pela força. Isso leva à necessidade de se abrir o maior número de frentes possíveis. Redobra portanto a importância estratégica do petróleo da Venezuela, do gás da Bolívia, e, notem bem, do gás e petróleo da plataforma continental brasileira.

E, de fato, os Estados Unidos estão nessa contingência de se desmembrarem em múltiplas frentes para assegurar o abastecimento de matérias primas, garantir mercados para seus produtos e impor sua hegemonia. Isso não é tarefa fácil mesmo para um grande império. Assim, não estão delirando os intelectuais europeus que prevêem a possibilidade de sua implosão.

Não é isso o que tem acontecido ao longo da história? Não é o que aconteceu com a URSS? É um discurso no mínimo diversionista, senão salvacionista, pretender que a URSS foi derrubada por ter sido derrotada na guerra fria. O que aconteceu foi precisamente a implosão de um império que perdeu as condições de se manter em múltiplas frentes. Exatamente o que está acontecendo com os Estados Unidos nos dias de hoje. Em quantas frentes e por quanto tempo agüentarão?

Mas tampouco se pode descartar a guerra fria como um fator subjetivo que influenciou de alguma maneira a queda da URSS, pois a mídia conseguiu estigmatizar o socialismo soviético e criar uma onda de opinião pública desfavorável, minando possíveis bases de apoio. Digamos que foi um empurrão no império prestes a implodir.

Hoje há também um fator subjetivo presente que é o antiimperialismo, tendo como alvo a política imperial dos Estados Unidos. E considerando que o cenário no mundo de hoje é dominado pela convergência tecnológica nas comunicações, é de se esperar o incremento do conflito entre o anti e pró império.

Muita gente tem medo de que a derrocada do império estadunidense arraste consigo toda a economia mundial, com graves conseqüências sociais. Esse é outro mito que é necessário desfazer. Decorre, entre outras coisas, do fato de todo mundo querer vender para o que consideram o maior mercado consumidor do mundo.

Está certo: é um tremendo mercado, mas o seu fim está longe de representar o fim do mundo. Já ocupou maior espaço. Hoje é um mercado em processo de encolhimento numa economia que precisa de guerra para sustentar-se. Em relação com o Brasil, por exemplo, os Estados Unidos já foram os maiores compradores das exportações brasileiras. Mas, isso foi há bastante tempo.

Hoje, as exportações para os Estados Unidos estão em torno de 25% do total, um índice acima da média das últimas décadas. Mesmo nos governos de Collor e Cardoso essa porcentagem esteve abaixo de 20%. Nos últimos anos houve retração das exportações para América Latina, particularmente para a Argentina, devido à crise, o que explica o desequilíbrio. As exportações para a Europa e Ásia mantêm-se equilibradas e podem crescer. Vale lembrar ainda, como exemplo, que a carne bovina brasileira, que entrou recentemente na pauta das exportações, é exportada para mais de 100 paises.

A queda do império soviético não levou o mundo à falência. Aqueles 350 milhões de habitantes já recuperaram o terreno perdido e agora começam a crescer. Imagine-se o tamanho que terá o mercado da Comunidade Européia após a integração da Rússia. O que será o mercado da China em dez anos mais mantendo aquele país o ritmo de desenvolvimento atual? Só a China cresce por ano um Brasil inteiro. O que será o mercado interno da América Latina se nos tornamos independentes?
Veja no anexo as potencialidades da China

Se o mercado dos Estados Unidos desaparecesse – se isso fosse possível – realmente não seria o fim do mundo. Os Estados Unidos não precisam desaparecer como mercado. Precisam desaparecer como potência hegemônica, pois, isso já não faz mais sentido para o mundo civilizado.

Na América Latina somos 450 milhões que, se encontrarmos o caminho para o desenvolvimento num contexto de integração bolivariana, não precisaremos dos Estados Unidos. Eles sim, como também a Europa, é que continuarão precisando de nossas matérias primas, de nossos alimentos produzidos com melhor qualidade e preço.

A Europa que viveu os pesadelos das décadas de 30 e 40 do século XX, não tem como deixar de fazer comparações com o que está ocorrendo na atualidade. Tal como no passado, o império de hoje se crê onipotente e atua com a mesma arrogância e prepotência em relação ao resto do mundo.

No passado, a Hitler não faltou apoio entusiástico de um Franco, um Mussolini, da mesma forma que a Bush não tem faltado apoio de um Berlusconi, um Asnar, um Blair, um Sharon. Não se pode esquecer que em todo o mundo de ontem houve entusiasmo com as façanhas de Hitler, como hoje há ainda certo entusiasmo com as de Bush. Afinal, um pais em guerra compra, seus aliados vendem.

Quem governa os Estados Unidos? A constituição ou o capital monopolista? Existe liberdade de imprensa naquele país ou submissão ao capital monopolista? O governo serve às grandes corporações ou as grandes corporações se servem do governo? Isso é democracia ou é liberdade democrática para bendizer o way of life?

Como dizia Georg Lukács no início dos anos 1960 sobre a ditadura do capital monopolista: o que Hitler conseguiu com a força bruta, a classe dominante estadunidense conseguiu através de uma fachada democrática,

Esses paralelismos históricos são importantes ainda que não determinantes. Ajudam a entender o momento atual e reforçam a idéia de que outro mundo não só é possível como é imperativo.