Revolução Cultural
Do vicioso para o virtuoso


Textos de Paulo Cannabrava Filho*

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Historicamente, a indústria da construção tem sido a grande impulsionadora do desenvolvimento A grande expectativa
nacional é o início
do espetáculo
do desenvolvimento

A grande expectativa nacional é o início do espetáculo do crescimento. A perplexidade é que não tendo começado em 2003 tampouco acontecerá em 2004, nem em 2005, nem nunca, a não ser que se mudem as regras do jogo, . E tudo indica que não há intenção de que as coisas mudem. Assim sendo, o máximo que poderá ocorrer é um crescimento insuficiente e distorcido beneficiando poucos setores já abastados. Não o desenvolvimento desejado: integral, auto-sustentado, de pleno emprego.

A preparação dos cenários para o espetáculo já deveria estar ocorrendo. Não é preciso romper com o FMI ou dar calote na banca internacional. O realmente necessário é um projeto nacional de desenvolvimento que nos livre da ditadura do capital volátil.

Todo credor sabe que não pode cortar as mãos do artesão se pretende que ele pague sua dívida. Essa regra não está valendo entre nós. O que interessa aos nossos credores é que tenhamos renda suficiente para continuar garantindo suas ganâncias. Nossos economistas e planejadores parecem que se especializaram precisamente nisso. Portanto, como parece que não há uma mudança de mentalidade, nada de novo acontecerá.

Com a carga tributária em nível recorde e os juros pornográficos que os bancos cobram para desconto de duplicada e empréstimos não há como esperar que o setor industrial volte a ser o que era nos anos 1980. Enquanto os bancos têm lucros anuais acima de 400% as pequenas e médias empresas estão fechando as portas.

O empresário descapitalizado e parque industrial trabalhando com capacidade ociosa, desemprego crescente, população depauperada, salários aviltados, tudo isso conforma um circulo vicioso que leva à deterioração do tecido social. Vivemos em clima de guerra civil com mais de 50 mil mortes por violência ao ano.

É preciso criar o circulo virtuoso do investimento produtivo, gerador de emprego e riqueza. Um crescimento a taxas médias de 10% ao ano, em cinco anos elevaria o PIB em 60%, colocando-o cerca de R$ 2,2 trilhões. Essa diferença de mais de R$ 800 bilhões, equivalentes a mais de 300 bilhões de dólares, é mais do que suficiente para garantir a dívida externa que está em torno de US$ 200 bilhões. Em dez anos, o PIB cresceria mais que o dobro, superando 3 trilhões de reais, tornando comparativamente irrisório o valor atual da dívida.

Mas, não é para pagar a dívida que devemos crescer. Dívida, desde os tempos bíblicos, existe para ser negociada. Devemos crescer para oferecer vida digna ao povo brasileiro. E se tivermos um projeto vigoroso de desenvolvimento poderemos até fazer mais dívidas para acelerar ainda mais esse desenvolvimento. O que conta é o poder de negociação. É ter riqueza e poder para impor à banca os critérios para o uso da poupança.

Como crescer a taxas anuais superiores a 6% que é o mínimo que o Brasil precisa para gerar em torno de um milhão de novos empregos por ano? Isso só é possível com o controle do sistema financeiro e das perdas internacionais. Não é preciso expropriar os bancos. Basta impor taxas de juros compatíveis com as que eles cobram nos Estados Unidos, por exemplo, e colocar os spreads em níveis civilizados.

Privilegiar o investimento na infra-estrutura, por exemplo, foi uma das bandeiras da campanha do Lula. É correta a intenção. A indústria da construção, por exemplo, é a que emprega maior número de mão-de-obra direta e indireta e é a mais dinâmica porque para movimentar-se utiliza todos os demais setores produtivos do país.

O Secovi tem estudos que comprovam que com investimento de 5% do PIB, algo em torno de 70 bi, poderiam ser construídas 5 milhões de casas populares, pelo menos. Ainda segundo esses estudos, cada milhão dessas casas de 40 metros quadrados que se construísse estaria gerando 80 mil empregos diretos e outros 160 mil indiretos. 5% do PIB é o que o Tesouro está guardando para garantir o superavit primário que nem é mais exigido pelo FMI.

Os Estados Unidos conseguiram levantar a economia arrasada pela guerra civil de 1888 privilegiando a indústria da construção. A mesma estratégia serviu para ressuscitar a Europa destruída pela II Guerra Mundial. Temos um déficit de mais de 10 milhões de unidades habitacionais, nossas estradas estão imprestáveis e insuficientes, precisamos de hidrelétricas, de portos e aeroportos. O setor da construção não precisa pagar royalties pois dispomos de tecnologia de primeira linha. Além disso, só consome matéria prima e manufaturados nacionais. Os recursos para impulsionar esse desenvolvimento podem vir da agricultura em expansão e através do estímulo à poupança interna e até com recursos externos. O que falta é vontade política para assumir o desafio.