Lula 52,3 milhões:Início de novo tempo
À guisa de introdução:
 um conceito


Textos de Paulo Cannabrava Filho*

Início A questão
política
Cenário
internacional
Crise econômica Saídas para o
desenvolvimento
Conclusão
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A sobrevivência da espécie está ligada à organização da produção do alimento que é o mesmo que dizer à organização
da vida.
Quando descemos das árvores evoluímos de apenas
gregários para o ser social. Quem sabe esses
0,05% de DNA que nos separam da minhoca,
estão na capacidade genética de acumular
conhecimento para melhorar nossa condição
de vida, modificar nosso entorno

Essas constatações constituem o maior avanço ocorrido na ciência genética. Ao decifrar o código genético os cientistas comprovaram que homens, mulheres, negros, brancos, amarelos ou índios, somos todos absolutamente iguais.

É longo o caminho percorrido pela humanidade na construção do processo civilizatório que desembocou no que somos hoje. À primeira vista pareceria que evoluímos muito, que estamos muito distantes daqueles que iniciaram essa marcha. Não obstante, nas questões essenciais, o arquétipo humano continua o mesmo.

Uma dessas questões essenciais e permanentes nessa longa marcha empreendida pela humanidade é o conflito. Conflito na estruturação do poder na família. Conflito na estruturação do poder na comunidade. Se prestarmos atenção, veremos que o  confronto entre nômades e sedentários no passado não é diferente do conflito entre potências hegemônicas e países em desenvolvimento. Então, fica evidente o verdadeiro busílis que é a contradição entre opressão e libertação.

 Observando as contradições derivadas dessa realidade em que o ser humano, como ente social, busca formas de convivência, a filosofia entendeu que isso é política.  Isso quer dizer que sendo o ser humano um ente social ele é também um ente político. A política estrutura a sociedade, organiza as formas de convivência, não só no interior de uma comunidade como também com o mundo exterior.  Organiza inclusive a cultura e também as formas de dominação.

Ouve-se muito falar em cultura. Inclusive o governo se arvora em promotor cultural com seu Ministério da Cultura, Secretarias Estaduais e Municipais de Cultura. Não obstante, é difícil perceber a que se referem essas entidades governamentais.

 Quando  a humanidade se organizou para viver socialmente, além da necessidade de superar conflitos, tiveram que resolver a necessidade de alimentar muita gente. Descobrimos então, que sem a terra não há a produção e que sem o trabalho não há a produtividade. A sobrevivência da espécie está ligada a organização da produção do alimento que é o mesmo que dizer à organização da vida. A humanidade adquiriu mais sabedoria e experiência a partir da atividade agrícola – a cultura agri. 

Cultura é semear, cuidar e colher, armazenar, distribuir. Isso é tão importante – é trabalhar pela vida – e portanto vital - que a filosofia chamou de cultura todo o conhecimento adquirido. Daí que não se pode pretender reduzir a cultura a meras apresentações da criatividade artística. Modo de produção também é cultura, também é arte.

 A acumulação do conhecimento ocorrida em uma agrupação humana e sua organização num espaço geográfico comum gerou a Nação. O mesmo idioma, modos de produção comuns, um jeito próprio de encarar a vida, a identificação na criatividade objetiva e subjetiva nas artes, tudo isso constitui a personalidade de um povo. É o que se entende por identidade cultural de uma Nação. 

Ética e cidadania são palavras
de um mesmo conteúdo

A Nação se organiza e impõe regras para a convivência social. Ela se organiza para a defesa de ataques externos, proteção de suas fronteiras. Organiza-se também para preservar sua identidade cultura. Essa organização é o Estado. O Estado é o ente político social. É a nação organizada para a defesa e para as relações internacionais.

 Ainda segundo os filósofos, o que dá o conteúdo à organização social é a ética. Assim como a estética está relacionada com a construção do belo, com a busca da perfeição na arte, a ética está relacionada à busca da perfeição na convivência social. O mundo ético é o mundo bom. 

A ética é indispensável para o desenvolvimento social. Há quem diga que ética é bem estar social. Giannetti, por exemplo, diz que sem ética a própria sobrevivência fica comprometida.

 Com esse entendimento, hoje se estuda a ética do desenvolvimento. Entram aí as questões tão em voga como a ética da ecologia, da reprodução, da genética, do transplante, dos transgênicos.

 Tanto nos meios de comunicação tradicionais como no mundo virtual – e há que incluir aqui todo tipo de utilização que se dê à Internet - a exigência da ética é crucial. E é preciso pensar se, além disso, não deve existir um certo controle. 

Quando se fala em ética na convivência social se está definindo o conceito de cidadania. Aliás, entendo que ética e cidadania são palavras de um mesmo conteúdo.  O cidadão é o indivíduo  como parte do Estado. A convivência e a interação entre os diversos indivíduos impõem limites à liberdade. O cidadão ético é aquele que conhece os seus direitos e os direitos dos outros, direitos que são regulados pelo Estado.

Uma pergunta persegue intelectuais e artistas desde priscas eras: Qual é o papel do artista cidadão, do intelectual cidadão? Como ser um artista ético? Um intelectual ético? 

O compromisso maior do intelectual cidadão, do artista cidadão é para com a sociedade. A sociedade de sua nação, de seu país.

A sociedade do consumo estetizado, da ditadura do capital volátil, do liberalismo transformado em libertinagem, privilegia, sobretudo o indivíduo. Pior que isso. Mais valor tem aquele que leva vantagem.

Ora, o indivíduo não pode ser contraponto ao social porque o indivíduo é social!

A contracultura da pós-modernidade é contra a cultura da modernidade. Enquanto aquela vê o fim a história, esta trata de resgatar a história para forjar o futuro.

A banalização dos valores culturais nacionais, a cultura de massa e a conseqüente alienação, a desesperança diante da ausência de futuro, a ridicularização de nossos líderes, tudo isso forma a contracultura da globalização que é, nada mais nada menos, que a velha cultura da dominação.

Vale lembrar Roberto Damatta que diz que está na hora de pensar criticamente a liberdade. É para concordar. A liberdade desprovida da ética cidadã leva à barbárie em que se está transformando o mundo hoje.

 A modernidade exige a construção da igualdade. Toda ação cultural deveria estar dirigida à construção da solidariedade, ao desenvolvimento da igualdade. Só assim chegaremos ao cidadão ético, capaz de viver em harmonia com a natureza e de construir a paz. De não ser assim, estamos fritos, literalmente. De onde se conclui que é necessário planejar o futuro de modo consistente, e criativamente.