Lula 52,3 milhões: Início de novo tempo
Cenário internacional


Textos de Paulo Cannabrava Filho*

Introdução A questão
política
Início
Crise econômica Saídas para o
desenvolvimento
Conclusão
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A América Latina dispõe de tecnologia e de recursos naturais inesgotáveis para produção de excedentes de energia Bush quer a guerra para salvar a economia estadunidense - O petróleo ainda será a principal fonte de energia nos próximos 25 anos, pelo menos - A Alca é um corolário mais à Doutrina Monroe - América Latina tem história e destino comuns - Estados Unidos conspirarão sempre contra qualquer governo nacionalista - Política externa independente requer coesão na frente interna - Washington conta com o servilismo histórico de nossas elites

Temos um mundo multipolar contra a imposição
da hegemonia dos Estados Unidos

O primeiro ponto a se considerar numa análise de conjuntura internacional é que nos Estados Unidos, o governo neonazista de Bush está trabalhando com algumas premissas que são determinantes para formulação de estratégias e políticas tanto internas como de relações exteriores.

Guerra

 Uma é a de que a guerra é inevitável para reativação da economia estadunidense. O programa Guerra nas Estrelas ficou inviável no curto prazo não restando alternativa que a da guerra. O New York Times publicou um artigo exatamente nesses termos no dia 9 de setembro de 2001, antevéspera da tragédia das Torres Gêmeas do dia 11. Na semana seguinte, Bush declarava guerra ao Afeganistão. A ação foi um tanto frustrante do ponto de vista bélico, mas assegurou o controle sobre reservas e rotas petrolíferas. Sem falar no lucrativo comércio do ópio.

 Petróleo

 Outra premissa é a de que o petróleo ainda será a principal fonte de energia no mínimo pelos próximos 20 a 30 anos. O petróleo é a base do way of life estadunidense.

 Não se conhecem resultados de pesquisas sobre fontes de energia alternativa apontando para outro caminho, ou indicando que isso irá ocorrer num período de tempo mais curto. O petróleo dos países do Golfo Arábico portanto, redobrou de importância estratégica.

 Deflagrar a guerra contra o Iraque, controlar os poços e as rotas do petróleo do Oriente Médio mata dois coelhos de uma cajadada: atende a necessidade de guerra e garante abastecimento do óleo para os próximos 15 a 20 anos, pelo menos.

 Uma situação de guerra sempre produz imprevistos. O petróleo da Venezuela – o segundo maior exportador mundial – assim como o do México, está ali mesmo, a poucos quilômetros da Florida. O oleoduto do Panamá torna o abastecimento da costa oeste (Pacífico) tão fácil como da costa leste (Atlântico). Segundo a doutrina Bush, não se pode deixar esse petróleo estratégico em mãos de inimigos dos Estados Unidos. Então Chavez, tal como Sadam, pertence ao “eixo do mal”.

O Brasil constitui reserva estratégica
 para os Estados Unidos

 União Européia

 Como terceiro ponto, a reativação da economia e a manutenção do crescimento econômico em situação tanto de guerra quanto, principalmente, em situação de paz, requer mercado em expansão. A Europa já não é mais aliada incondicional, alinhada docilmente à política externa dos Estados unidos.

 A Europa voltou a ter objetivos estratégicos próprios. A União Européia, hoje com 15 países, já anunciou que até 2004 terá incorporado mais dez países e que essa incorporação poderá efetivar-se a partir de dezembro de 2002. Serão 75 milhões de habitantes a se somarem aos 380 milhões dos 15 membros, e um acréscimo de cerca de 350 bilhões de dólares ao PIB da UE. Com certeza os sete mais ricos  da UE, devido a essa ampliação, terão muito com que se ocupar por longo tempo.

 Alca

 A Doutrina Monroe de 1826 já previa que a área de interesse estratégico dos Estados Unidos se estende do Canadá à Patagônia. A Alca, o mais novo corolário dessa doutrina, tem o objetivo de assegurar mercado para expansão da economia estadunidense. Isso implica em manter o controle das políticas de desenvolvimento ao sul do Rio Bravo. O Brasil é a reserva de mercado estratégica para os Estados Unidos. E isso não é novidade.

 Outro ponto a se considerar na conjuntura internacional é que o mundo não é unipolar como os Estados Unidos pretendem e a nossa mídia faz eco. O mundo na atual conjuntura é no mínimo pentagonal: Estados Unidos, China, União Européia, Rússia, e Japão. Japão é o único que não une poderio econômico com poder nuclear. Rússia, debilitada após a desmontagem da URSS, está comprovando que tem incalculáveis possibilidades de recuperação econômica e de força política. E ainda há a possibilidade de que a Rússia seja o décimo oitavo país a integrar a União Européia. A UE precisa do petróleo e do mercado russos e a Rússia precisa da UE para sua re-inserção  como protagonista de peso na política mundial.

 Não Alinhamento

 Também os países do Terceiro Mundo ainda poderão recuperar a autoconfiança e de novo atuar com políticas concertadas nos foruns internacionais, não só para impor critérios mais justos nos termos de intercâmbio, mas também para impor políticas de paz. O movimento dos Não Alinhados já deu cabal demonstração de que esse tipo de política e de atuação funcionam.

A América Latina tem historia e destino comuns. Até o Fernando Henrique reconheceu isso quando disse que a Aliança de Livre Comércio das Américas (Alca, proposta pelos Estados Unidos) é opção, o Mercosul é destino. Só que a política de sujeição ao capital volátil e aos interesses dos Estados Unidos, seguida pelo governo do PSDB, não favoreceu o Mercosul. E se Serra tivesse sido eleito, esse projeto estratégico seria abandonado, pois ele declarou em campanha que o Mercosul não deu certo.

 Mercosul

 O Itamarati (Ministério das Relações Exteriores) está certo quando recomenda ao governo que priorize o Mercosul e a América Latina. Para os países latino-americanos o Brasil é estratégico sob todos os pontos de vista da sobrevivência e a recíproca é verdadeira. Com o petróleo da Venezuela, da Argentina, do Brasil e do México, gás da Bolívia e carvão da Colômbia, a América Latina é auto-suficiente em combustível fóssil por muitas décadas. E ainda dispõe de tecnologia e meios inesgotáveis para produção de energia da biomassa. Tanto em situação de guerra como em situação de paz, América Latina pode produzir excedentes de produtos energéticos em abundância para exportação, fonte de divisas para impulsionar o desenvolvimento.

 Os Estados Unidos são um mercado importante cobiçado por todos os países do mundo. Mas, os Estados Unidos são também um país dependente, pois para manter em funcionamento sua fantástica economia, importam mais de 70% da matéria prima estratégica de que necessitam. Essa debilidade é compensada com a diplomacia enganosa da política da Boa Vizinhança ou com a política do Grande Porrete (Big Stick), quase sempre com a força bruta.

Washington conta sempre com o apoio
incondicional de nossas elites para defender seus interesses

Compromisso

 A relação com os Estados Unidos constitui o grande problema de política exterior para qualquer governo que pretenda exercer uma política externa soberana, ou seja, dirigida a favorecer o desenvolvimento nacional e latino-americano. Ao fazer aliança com os setores nacionalistas é de se esperar que Lula tenha se comprometido com salvaguardar a soberania nacional. Assim sendo, a política exterior deverá ser uma das principais marcas a caracterizar o próximo governo. Será, sem dúvida, interessante um encontro entre Bush e Lula. Espera-se que Lula não se deslumbre como tem acontecido com ilustrados governantes oriundos de nossa elite. Pois Lula não tem porque se intimidar,  uma vez a legitimidade consagrada por 53 milhões de votos, e Bush a ilegitimidade de buma duvidosa contagem de votos  na Florida. Saindo de uma campanha vitoriosa na pregação da “paz e amor” Lula poderá dar ao Brasil condições para se colocar no cenário internacional como o grande arauto da paz, sempre almejada pela humanidade e hoje tão ameaçada por pretensões hegemônicas.

 O maior problema

 Claro que não interessa ao Brasil perder o mercado estadunidense que absorve entre 20% e 25% de nossas exportações. No entanto, temos que ter claro que o mundo é grande o suficiente para permitir a redução dessa nossa dependência. Aliás, é preciso ver com clareza que na questão das relações do Brasil com os Estados Unidos o problema maior não é o das trocas comerciais. O problema mais grave e difícil de resolver é o da submissão à estratégia estadunidense e à ditadura do capital volátil. Qualquer governo brasileiro que aponte ao exercício de uma política soberana provocará ações desestabilizadoras por parte dos Estados Unidos. Essa é a práxis histórica. Isso é o que está a ocorrer na Venezuela. Esse é o motivo do bloqueio permanente a Cuba.

 Qualquer governo democrático e progressista que atue em função dos interesses da soberania nacional terá imediatamente a oposição de Washington. E o que é pior, Washington terá o apoio incondicional das nossas elites historicamente submissas. O que se pode fazer como alternativa é mobilizar a opinião pública dos Estados Unidos. O New York Times, refletindo amplos setores da sociedade estadunidense tem recomendado que o Brasil merece um trégua para poder respirar.

No dia seguinte à
posse de Lula nossa elite
já estará conspirando

A elite tem aversão
aos adventícios e
Lula é o mais
adventício de todos:
operário e retirante.

 Adventícios

 Uma outra característica intrínseca à elite oligárquica brasileira é a profunda aversão aos adventícios (aqueles que chegam de fora). Fica eriçada só com pensar em compartilhar a mesa (não a cama) com alguém oriundo das classes subalternas.

 O ódio aumenta quando se trata de descendentes de imigrantes e chega ao paroxismo quando um deles chega ao poder não para lhes servir. E pior ainda se aparece alguém que quer o poder para servir ao povo.

Jânio, Collor, adventícios que tiveram momentos de glória por serventia, foram descartados quando já não serviam. João Goulart, Brizola, foram os mais demonizados dos políticos brasileiros por ousarem usar o poder para contrariar os interesses das elites. Eis aí o que está reservado para Lula, o mais adventício entre todos. O operário. No dia seguinte de sua posse, tal como aconteceu com Goulart, tal como aconteceu com Allende, tal como está ocorrendo com Chaves, a elite estará conspirando, e estará buscando apoio externo para a restauração do seu poder.

 Alternativas

 Para exercer uma política interna de desenvolvimento integrado e uma política externa voltada à construção da paz e da convivência pacífica entre os povos, bem como  à abertura de novos mercados, ao estabelecimento de parcerias construtivas com a União Européia, Rússia, Japão, China, Índia, África e até mesmo com os Estados Unidos, o Brasil terá de atuar em conjunto com a América Latina, terá que desenvolver uma diplomacia de guerra em tempo de paz e estabelecer agressivas políticas de comércio exterior. Talvez tenha chegado o momento de desdobrar o Itamarati criando um Ministério do Comércio Internacional. Essa política só será viável com firme apoio político interno e sustentação popular que só pode ser propiciado por uma Frente de Salvação Nacional.

 Consenso

 Para alguns, o objetivo do consenso de Washington é produzir no Brasil uma quebra (crack) igual a que conseguiram impor à Argentina. Para outros, não sendo o Brasil uma Argentina e sim a oitava economia do mundo, essa seria uma estratégia suicida pois a quebra do Brasil arrastaria muita gente consigo, seria uma ameaça ao próprio sistema. O problema da quebra, no entanto, está mais relacionado com o fato de haver ou não competência para administrar a crise. O que interessa aos Estados Unidos não é quebrar o Brasil e sim conduzir a política econômica de acordo com seus interesses. A situação de crise permanente é claro que lhes favorece. Eis outro busílis da questão econômica.

 A Saída

 Na realidade o Brasil já está quebrado e a crise está sendo administrada com grandes injeções de capital do FMI e muita enganação por parte do governo Fernando Henrique. E a situação entraria por rumos irremediáveis caso vencesse o continuísmo, pois a continuidade de uma política servil aos interesses dos especuladores só agravaria a crise. A sorte do sistema mundial foi o povo ter entendido que era preciso mudar. Ao votar em Lula votou na reprovação do governo FHC. Povo e empresários votaram por um modelo voltado ao desenvolvimento. Resta agora torcer para que não se desvie desse rumo. Torcer para que se consiga formar o propalado pacto social necessário para levar a cabo um programa de salvação nacional.