Lula 52,3 milhões: Início de novo tempo
Crise econômica


Textos de Paulo Cannabrava Filho*

Introdução A questão
política
Cenário
internacional
Início Saídas para o
desenvolvimento
Conclusão
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Só para atender o crescimento vegetativo da população é preciso gerar 1,5 milhão de empregos a cada ano O grande mote da campanha do PSDB e do PT foi a questão do desemprego. Ambos candidatos prometeram a criação de 3 a 10 milhões de postos de trabalho. Ninguém explicou como. Lula, mais lúcido, afirmou que só com crescimento econômico se geram novos empregos.

Para superar a crise o PIB brasileiro precisa
crescer acima de 6% ao ano

Nos últimos 30 anos a taxa de desemprego tem se mantido mais ou menos constante, em torno de 8%. Em 2000, no entanto, o volume de desempregados chegou a 15% da PEA sendo que, em São Paulo, onde há maior concentração industrial, chegou e se mantém acima de 20% - mais de 2 milhões de trabalhadores.

 Márcio Pochmann, do Instituto de Economia da Unicamp (Universidade de Campinas) e da Secretaria de Emprego da Prefeitura de São Paulo, divulgou estudo em que mostra que enquanto o desemprego no Brasil cresceu 155,5%, de 1995 a 2000, o gasto do governo em política de emprego caiu relativamente 35,2%. Em 2000, quando o desemprego atingia 15% da PEA, foram investidos 0.9% do PIB em políticas de emprego. No mesmo ano, a Espanha, com desemprego de 14,1%, aplicou 2,6%. Nas sociais-democracias dos países escandinavos os gastos com políticas de emprego são maiores que as taxas de desemprego. 

Historicamente as taxas de crescimento do emprego no Brasil acompanhavam as taxas de desenvolvimento. Tivemos situação de pleno emprego com taxas de crescimento industrial de 14%. Pochmann demonstra que com a variação média anual do PIB de 2,2% na década de 1990, a ocupação total cresceu 1,5% enquanto o emprego formal foi reduzido, em média, 1,2% ao ano.

 Não está aí o principal  drama do desemprego. As estatísticas giram em torno dos empregados formais, com carteira assinada. Ocorre que o crescimento vegetativo da população brasileira, hoje em seu índice histórico mais baixo, em torno de 1,3%, requer a criação de 1,3 a 1,5 milhões de novos empregos a cada ano.

Evolução da taxa de desemprego

Só para atender o crescimento
vegetativo da população é preciso gerar
1,5 milhão de empregos a cada ano

Atender essa demanda só é possível com taxas mínimas de crescimento do PIB em torno de 3% a 3,5%. Observando-se a evolução do PIB nos últimos 30 anos, vemos que a média fica abaixo dos 3% e muitas vezes negativa. A não geração de empregos nessas décadas explica a multidão de 55 milhões de pessoas marginalizadas, que vivem abaixo dos índices suportáveis de pobreza. Não bastassem outros fatores da dívida social brasileira – educação e saúde por exemplo – esses dados são suficientes para se entender de porque de tanta miséria e tanta violência em nosso país.

 Já em 1990 a economia informal representava 50% do PIB.  A impressão que se tem é que o país se mantém graças à agricultura e à economia informal – inclusive crime organizado. Durante o octênio FHC, a média de crescimento ficou em torno de 2,2% ao ano.

 Crescimento insuficiente
agrava miséria e dependência

 Crescimento insuficiente, conseqüente a políticas monetárias subordinadas ao FMI, registrou média de 2,9% na década de 1980 e 1,9% na década de 1990, média de 2,5% em 20 anos.

 O crescimento do PIB tem uma relação direta com as taxas de investimento que também têm se mantido extremamente baixas nas duas últimas décadas: 18,4% na década de 1980 e 15,6% na década de 1990, chegou a 22% em 2000. Gustavo Franco, economista ex-presidente do Banco Central, avalia que para o país crescer a taxas necessárias  de 8% a 10% ao ano, precisa de percentual de investimento de pelo menos 30% do PIB. Os países da Ásia aplicam em torno de 35%.

A concentração cada vez maior do capital, a globalização, a política de estimulo à exportação, não melhoraram os indicadores sociais brasileiros. Na década de 1990, por exemplo, as 500 maiores empresas instaladas no Brasil em nada contribuíram para a oferta de empregos. Muito ao contrário, extinguiram 400 mil postos de trabalho. Para o economista José Pastore nos anos 1990 foram reduzidos cerca de 1,5 milhões de empregos formais. Assim, o aumento registrado na produção deve-se exclusivamente ao aumento da produtividade.

 Para manter a oferta de empregos em níveis satisfatórios o país precisa crescer acima de 6% ao ano. O crescimento abaixo disso, se dá por ganho de produtividade, não acrescenta.

Evolução da taxa de crescimento do PIB

Brasil: Campeão em marginalidade social

   onseqüência dessas políticas recessivas e de exclusão social, o Brasil figura entre os cinco países com maior concentração de renda do mundo. Os dados do IBGE mostram o tamanho desse fosso social

 Níveis de renda dos trabalhadores brasileiros - final de 1999.  

 Renda de  até  um salário mínimo       14,4 milhões trabalhadores       21%

Renda de 1 a 2 salários mínimos         14,6 milhões trabalhadores       21%

Renda de 2 a 3 salários mínimos           8,5 milhões trabalhadores       12%

Renda de 3 a 5 salários mínimos           9,9 milhões trabalhadores        14%

Renda de 5 a 10 salários mínimos         7,0 milhões trabalhadores        10%

Renda de 10 a 20 salários mínimos       3,l  milhões trabalhadores          4%

Renda acima de 20 salários mínimos    1,6 milhões trabalhadores           2%

(Fonte: Dieese, com base no PNAD-Ibge, (OESP 20/2/00)

 Diante do discurso de Lula anunciando que iniciará um programa de emergência para erradicar a fome garantir que “cada brasileiro possa se alimentar três vezes ao dia”, os jornais foram buscar no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) a dimensão atualizada da miséria nacional: em 2001, 57 milhões de brasileiros estavam classificados como pobres, dentre os quais, 24,7 milhões, 14,6% do total da população, no nível de indigência.

A inflação real é diferente dos índices oficiais

 O maior efeito de que se gaba Fernando Henrique, foi o de haver controlado a inflação. De fato, o Plano Real estabilizou a moeda que estava com inflação anual em torno de 8.000%. Não obstante, não demorou para a inflação voltar, camuflada nos índices oficiais e insuflada pelos aumentos nos preços administrados pelo próprio governo, como das tarifas públicas, por exemplo.

 O combate à inflação nos últimos 20 anos tem sido travado sempre com medidas monetaristas e recessivas quando num país com o potencial do Brasil deveria se dar através da promoção da produção. Na medida em que a oferta de arroz, feijão, carne, leite, seja maior que a demanda nacional por esses produtos e existam excedentes  para exportação, não haverá inflação e ainda haverá geração de divisas.

 Basta observar os países mais desenvolvidos que se verá que isso é obtido com a formulação e execução de políticas agrícolas inteligentes, ou protecionistas, a exemplo do que fazem a UE e os EUA. O Brasil, com a maior extensão de terras agricultáveis do mundo, ainda importa alimentos básicos (trigo, cevada, etc).

 Outro artifício utilizado pelo governo para combater a inflação foi manter um valor artificial para o dólar. Quando tiveram que aceitar a realidade, só entre 1998 e 2001 o câmbio sofreu uma desvalorização de 113%, provocando aumentos incontrolados em vários setores da economia.

 José Serra, quando ainda era deputado federal, alertava que “pior de uma recessão que dure oito meses, é que a recuperação econômica demandará pelo menos outros 20 meses”. Se ele sabia disso, quando participou do governo de FHC, inclusive como ministro do Planejamento, porque não indicou a seu amigo presidente o caminho a seguir?

Evolução da alta do custo de vida real

Outro recorde de Fernando Henrique:
A dívida pública só não é maior que a dívida social

Corrupção endêmica na máquina administrativa

     Outro gargalo para o próximo governo é a máquina administrativa historicamente conivente com a gatopardização na estrutura do poder brasileiro. O estado brasileiro, assim como toda sua estrutura, foi montada no período colonial à margem da Nação, não para organizá-la, constituí-la, mas para sangrá-la em benefício de coroa e de seus prepostos. A indiferença do estado diante da miséria nacional, portanto, tem raízes históricas. Assim também a corrupção ativa e passiva de funcionários em todos os níveis de governo.

Essa situação começa a mudar um pouco com a necessidade cada vez maior de modernizar a máquina pública, seja como resposta as exigências da própria modernidade, seja por pressões de organismos internacionais de financiamento que exigem prestações de conta detalhadas, controle do déficit e dos gastos. São esses mesmos organismos contudo que alertam sobre a presença da corrupção na máquina. Não faz muito tempo o Bird denunciou que em 1995, 90% dos recursos aplicados em projetos de redução da pobreza no meio rural não chegaram aos destinatários. Outros 10% eram bem aplicados porque havia forte monitoramento das comunidades locais.

 
Amarrado a compromissos com credores internos e externos, o governo deixou de investir na produção e alimentou um verdadeiro cassino manejado por especuladores. Conseqüência disso e do descontrole cambial, com o dólar em torno de R$ 3,70, a dívida pública chegou, em outubro de 2002, a 64% do PIB.

 No dia 30 de outubro, a dívida total da União, Estados e Municípios estava em R$ 230,7 bilhões, sendo R$ 224 bilhões da dívida interna e R$ 6,7 bilhões da externa. Do total, R$ 27,3 bilhões correspondem à dívida das empresas estatais estaduais. Só o Estado de São Paulo deve R$ 72.862 milhões. A dívida externa total fechou outubro em torno de US$ 210 bilhões, com um custo ao país de cerca de 6% do PIB.

 O pretexto para a dívida tem sido sempre a necessidade de compensar a falta de poupança interna com a poupança externa. Para atrair recursos, emitem títulos pagando juros até oito vezes maior que a média internacional. O capital veio, mas veio para especular, não para produzir riqueza. Ao contrário, tem sangrado as reservas e criou o risco Brasil, reduzindo as chances de receber investimento produtivo. Se esses investidores retirarem seus dinheiros de uma só vez quebram o país. Fizeram isso com a Argentina, vejam o que deu.

A dívida tem servido
somente para se pagar dívidas

 Por que a dívida cresceu tanto e não se vê investimento? Porque os investidores aplicaram seus dinheiros aqui para lucrar com os juros pornográficos oferecidos pelo governo. Juros reais, imorais, em torno de 13% em 1990, chegaram a 30% em 1992 e hoje estão entre 25% e 30%. Para se ter uma idéia dessa distorção, O México, com conjuntura similar a nossa, mantém juros de 5% ; os tigres asiáticos entre 3% e 4%, incluindo-se a Rússia; a Índia, 2% e os países desenvolvidos menos de 1%.

Em 1999 o governo gastou cerca de R$ 127 bilhões com pagamento de juros e amortizações da dívida, 44% de todas as receitas do orçamento da União. A Gazeta Mercantil mostrou a distorção desse comportamento diante da necessidade real do país. Enquanto em 1999 o governo desembolsou R$ 126 bilhões com encargos de uma dívida de 414 bilhões, com os principais itens sociais do orçamento gastou:

 ·        Com a Educação            12 bi

·        Com a Saúde                  19 bi

·        Habitação Popular          zero

·        Eletrificação rural            zero

·        Reforma Agrária             1,2

 São empréstimos bancários e papéis que o governo emite para captar recursos dos investidores internos e externos, oferecendo rendimento geralmente atraente. Inclui também as dívidas de estados e municípios, consolidadas pela União.

 A relação da dívida líquida do setor público com o PIB que em 1994 estava em torno de 20%, com a desvalorização do real de outubro chegou a 64%.

Relação da dívida com o PIB

 Outra distorção grave é que uma boa parte dos títulos da dívida, apesar de terem seus valores expressos em moeda nacional, quando resgatados por investidores estrangeiros eles são indexados ao valor do dólar do dia do vencimento. Em torno de 40% dos títulos estão assim indexados.  Cerca de 40% dos títulos estão assim indexados.

 Antes da eleição presidencial, em véspera do vencimento de US$ 1,25 bilhões de títulos federais indexados, os especuladores forçaram a alta do dólar que estava a R$ 3,00 em agosto, fazendo-o chegar a R$ 4,00, o que lhes permitiu um ganho de mais de R$ 1,4 bilhões.

 O governo da ditadura do capital volátil assistiu sorrindo e ainda aproveitou a desvalorização para fazer terrorismo eleitoral, pondo a culpa nas incertezas provocadas pela oposição.

 No final de outubro, com a oposição já vitoriosa nas eleições e tendo sido iniciado o período de transição, em véspera de vencimento de novos títulos da dívida pública indexados, o Banco Central rolou a dívida, isto é, negociou a prolongação dos prazos de vencimento, conseguindo com isso, frear a ação dos especuladores e baixar o dólar a R$ 3,70. Com isso, deixou claro o motivo eleitoral da licenciosidade havida no vencimento anterior.

Evolução da dívida interna

 Arrocho

 Para enfrentar os gastos crescentes da dívida, o governo não tem como aumentar os já extorsivos impostos. Tem apelado então para novos endividamentos e para a contenção dos gastos. Assim, não há recurso para investir em desenvolvimento. Além disso, oito anos que os funcionários públicos não recebem aumentos salariais e o Salário Mínimo nacional está 50% abaixo das necessidades mínimas para sobrevivência. A situação dos trabalhadores aposentados de baixa renda é simplesmente dramática.

FHC elevou em quatro vezes o
s gastos com os serviços da dívida externa

 O problema da dívida externa tem uma atenuante pelo fato de pertencer, em sua maioria (60,1%, em setembro de 2000), ao setor privado. Mas não deixa de ter seu efeito perverso, pois, as remessas de dólares para pagamento dos juros e do principal representam uma sangria dolorosa e permanente, porque o Brasil, taxado de país de risco, paga juros mais altos que o normal. Além disso há que computar nessa sangria as remessas de lucros e de dividendos das empresas estrangeiras. Muitas dessas empresas, são as estatais que foram privatizadas no governo de FHC e que antes disso, se não geravam divisas tampouco as gastavam.

 Em 1994, FHC firmou o Plano Brady, de negociação da dívida. Ao contrário de nos favorecer, elevou em quatro vezes os gastos com os serviços da dívida.

 Em 1998 o valor da dívida foi maior que quatro anos de exportações, dois anos de arrecadação e seis vezes as reservas de divisas

 De dezembro de 1994 a dezembro de 1999, o serviço da dívida custou ao governo de FHC, 195 bilhões de dólares, sendo 75 bilhões de juros e 120 de amortizações. Só em 1999, pagou-se pelo serviço da dívida (juros + amortização), US$ 67 bilhões, sendo US$ 15,2 bilhões de juros e 51,9 bilhões de amortizações. Em 2002 deverão ter sido pagos 88 bilhões. Em 2003, só em amortizações o governo terá de desembolsar US$ 28 bilhões. É fácil ver que os que pregam o não pagamento da dívida, como a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), por exemplo, não exageram quando dizem que a dívida já foi paga.

 Na década de 1980, as remessas das empresas estrangeiras giravam em torno de um bilhão de dólares anuais. Em 1999, por conceito de remessa de lucro, foram gastos 7 bilhões de dólares, mais que os 6,8 milhões da receita tributária de 5.507 municípios brasileiros. O pagamento de juros, amortizações e remessas de lucros e dividendos custa hoje ao país cerca de 50 bilhões anuais, algo como 6% do PIB

 Outra sangria que ocorre sem controle das autoridades, se dá através das chamadas contas CC-5, que são contas bancárias de não residentes no país, com dinheiro geralmente utilizado para especular no mercado mobiliário, ou para emprestar para empresas estrangeiras. De janeiro a outubro de 2002 foram enviados para o exterior por meio dessas contas nada menos que 8.1 bilhões de dólares.

 É revoltante constatar que todo esse volume de dinheiro não financiou o desenvolvimento como deveria ser. Foi utilizado, preferencialmente, para possibilitar equilíbrio na balança de pagamentos, desequilibrada pelo excesso de remessa de lucros e pagamento dos juros e do principal da dívida.  Em outras palavras, os novos empréstimos são contraídos para pagamento dos serviços da dívida gerando um círculo vicioso incurável e indecente. Situação como essa só pode ser superada com o aumento do PIB, ou seja, desenvolvimento planejado com base no mercado e na poupança interna.

Evolução da dívida externa

Balança de pagamentos:
O Brasil é o país dos Impostos

 Como resultado da política econômica recessiva que privilegia a especulação financeira, o país tem acumulado déficits permanentes em sua balança de pagamentos. Para compensar essa situação, o governo tem alimentado a dívida pública que já consome 8% a 9% do PIB. E alimenta a dívida social, ou seja, aumenta a exclusão por falta de investimentos seja para o desenvolvimento, seja para área social.

 Outra conseqüência é o peso da carga fiscal sobre a sociedade brasileira. Organizações empresariais estão em permanente campanha pela redução do  “custo Brasil”, resultado da mais alta carga tributária do mundo: 31% do PIB.

 O gráfico mostra que os períodos superavitários são insuficientes para compensar os longos períodos deficitários que se agravam terrivelmente a partir de 1994, no governo FHC.

 Para que esses resultados não afugentem os investidores, o FMI passou a exigir do Brasil a prestação de contas na fórmula utilizada pelos Estados Unidos para escamotear seus enormes déficits: contabilizar os ingressos e egressos da administração excluindo os gastos com a dívida. Assim inventaram o Superávit Primário.

 A partir daí, todos os contratos com o FMI contêm a exigência de Superávit Primário, entre 3% e 5% do PIB. Uma exigência para assegurar recursos para pagamento dos serviços e principal da dívida ao sistema financeiro mundial.

Evolução do déficit público

Balança comercial:
outro fracasso de FHC

  Na teoria, o crescente déficit em conta corrente deveria ser compensado com superávits na Balança Comercial e investimentos diretos de poupança externa. O primeiro se consegue com aumento das exportações e redução ou não ampliação das importações.

 De 1994 em diante, no entanto, o comercio exterior obteve o pior desempenho em duas décadas. Uma das causas foi a manutenção de valor irreal para dólar, com claros objetivos eleitoreiros de Fernando Henrique, que desejava sua reeleição a qualquer custo em 1998.

Comércio exterior por blocos de nações

Os EUA  são o maior parceiro comercial individual do Brasil com 23.4% das importações brasileiras, e é o 11º mercado mundial para as exportações estadunidenses. Apesar do tamanho daquele mercado, são os Estados Unidos que vem obtendo superávits nas trocas com o Brasil: o acumulado de um ano em julho de 1998 estava em torno de US$ 3 bilhões, o quarto maior do mundo.

Evolução do comércio exterior

A entrada do capital estrangeiro
aumentou a sangria das divisas

  Ao adotar teorias liberais e submeter-se às pressões globalizadoras, a equipe econômica do fernandato anunciou que ausência de investimentos do Estado seria compensada pelo investimento estrangeiro. Muita gente acreditou. O capital estrangeiro aumentou a participação nas empresas instaladas o país, agravando ainda mais a sangria das divisas.

 Segundo o jornal Folha de São Paulo, o número de empresas brasileiras que sucumbiu ao assédio do capital estrangeiro nos últimos cinco anos mais do que triplicou em relação ao mesmo período imediatamente anterior. Depois do Plano Real (1994), foram realizadas 1.233 operações de fusões e aquisições no país em que o capital estrangeiro adquiriu o controle ou a participação em empresas de capital nacional.

 A tendência, que já estava definida desde 1995, se acentuou a partir de janeiro de 1999, com a maxi desvalorização do real que tornou as empresas brasileiras mais baratas em dólar. Depois da máxi, foram realizadas 341 transações com o capital estrangeiro, uma alta de 6,2% em relação ao ano anterior.

 Evolução do  Capital

 A participação do capital estrangeiro era de 14,8% em 1990; 26,4 em 1994 e, 36,4 em 1999. No período, o aumento foi de 36% para 53,5%, no setor de serviços de 9,4% para 26,1% e no bancário de 8% para 21,3%.

 Em 1994, o capital nacional respondia por 52% dos investimentos e do faturamento da industria de autopeças. Em 1998, os estrangeiros respondiam por mais de 60% e o presidente do Sindipeças, o sindicato das empresas, previa o desaparecimento do capital nacional no setor em cinco anos.

 No lucrativo negócio de supermercados, em 1993 o único dominado por capital estrangeiro entre os dez principais era o Carrefour. Em 1999 só restavam dois nacionais. Hoje, nenhum. O Carrefour disputa o primeiro lugar com o Pão de Açúcar, que também tem como sócio um francês, Casino.

 No setor de alimentação, a penetração tem sido brutal. Só a Parmalat comprou 15 fábricas.

 Das 20 maiores agências de publicidade do país apenas 5 são nacionais.

 Em 1994, o capital internacional tinha só 3% dos ativos totais dos bancos. Entre 98 e 99, 23 bancos passaram para controle estrangeiro.

 De 1995 a 1999, foram compradas 772 empresas, sem contar acordos e associações. Em 1995, equivalia a 6,11% do PIB. Em 1998, 12,34%. De janeiro a agosto de 1999, entraram US$ 20 bilhões.

 O Brasil é o terceiro maior mercado mundial para investimentos diretos de empresas USA, perdendo apenas para Grã Bretanha e Canadá. Os investimentos externos direto chegavam a US$ 24.5 bilhões de dólares em 1998. 

 A rentabilidade das empresas transnacionais com sede nos Estados Unidos obtida no Brasil é das maiores do mundo:

Brasil

8,42

Chile

7,13

México

6,07

Argentina

5,03

Ásia

6,75

Europa

3,99

Japão

2,40

Mundo

4,42

O capital estrangeiro procura sempre os setores mais dinâmicos, aqueles que geram retorno mais rápido do capital, como alimentos, manufaturados diversos, e, notadamente, supérfluos. E ainda há o problema de que quando deixa de ser interessante ou apresenta algum risco o investidor se retira para seu país de origem.

 As maquilas de Monterey, no México, pressionadas a aumentar salários, fecharam as portas e se mudaram para a China, deixando 300 mil mexicanos desempregados. Veja-se quantas empresas foram fechadas na Argentina, porque os investidores fugiram, agravando a crise.

A privatização das estatais
dilapidou o patrimônio nacional

 Com o argumento de buscar recursos para o desenvolvimento, o governo realizou o programa de venda das empresas estatais. Os tecnocratas diziam acreditar que o desenvolvimento dar-se-ia espontaneamente, numa economia de livre mercado. Na década de 1980, a tendência era recessiva e inflacionária. Na década de 1990 foi revertida a tendência inflacionária mas não conseguiram mover a economia além de alguns setores na área de serviços e de comunicação. O dinheiro arrecadado serviu para pagamento da dívida e lucro dos especuladores.

 Buscando o Estado Mínimo, o governo dilapidou o patrimônio nacional desfazendo-se de estatais, levando à quebra empresas privadas, estancando a economia e facilitando ao capital estrangeiro a compra de empresas dos setores mais dinâmicos. O governo deixou de investir e não conseguiu atrair investimento produtivo. A única novidade foi o crescimento da telefonia com a introdução do celular.

 Entre 1991 e 1998 o governo  arrecadou com a venda de empresas 67.98 bilhões de dólares, sendo 45.18 bilhões pela venda de empresas federais e 22.18 bilhões de empresas estaduais. Durante o governo de FHC (1994-2002) foram arrecadados 76.3 bilhões, totalizando 85 bilhões de dólares, dos quais 57.4 bilhões por empresas federais. Como se vê, nem a dívida nem o desenvolvimento foram beneficiados.

  Os bancos foram os grandes
privilegiados por FHC

 Os grandes privilegiados no período de  Fernando Henrique Cardoso foram os bancos. Em 1999, relatório do Banco Central evidenciava que o conjunto dos 220 bancos em operação no país tiveram um lucro líquido de R$ 104.4 bilhões, cinco vezes maior que o resultado do ano anterior. Um dos facilitadores desse ganho foi a desvalorização do real diante do dólar no início daquele ano e o fato de os bancos estarem cobrando, para o crédito pessoal (cheque especial) a seus clientes, juros de 145% ao ano.

 Nesse mesmo ano, o governo gastou R$ 37,7 bilhões para sanear bancos ameaçados de quebra, por meio do Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Sistema Financeiro Nacional (Proer). Com a desvalorização, o prejuízo do governo superou   R$ 30 bilhões.

 O lucro líquido  obtido pelos 20 maiores bancos passou de 2.219 bilhões em 2000 para 6,809 bilhões em 2001, um acréscimo de 206,84%.

Lucro de alguns dos grandes bancos

 É interessante registrar que os bancos estrangeiros tiveram em suas agencias no Brasil lucro 50% superiores aos obtidos em suas matrizes e agencias em outros países.

 Em dezembro de 2001, o saldo das cadernetas de poupança depositado nos bancos era de R$ 97.5 bilhões. A legislação brasileira em vigor obriga que 65% dos recursos de poupança sejam destinados ao crédito imobiliário. No entanto, o setor não recebeu um só centavo. Por meio de artifícios legais os bancos usaram esse dinheiro em parte (pouco mais de 40%), para cobrir o saldo devedor de mutuários do sistema de financiamento habitacional, e outra parte investida em aplicações mais rendosas.

 Um dos maiores gargalos para o crescimento das empresas é a falta de capital de giro. O Sistema Financeiro ainda não se livrou dos vícios dos tempos da ciranda. Em 1995, os bancos detinham ainda 14% do PIB quando numa economia normal deveriam ter 5%.

Falta de investimento em energia
 é trava para o desenvolvimento

 O problema da energia elétrica é outro gargalo em que tropeçará o novo governo para retomar a política de desenvolvimento. Para crescer é preciso energia. Ao sociólogo Fernando Henrique parece que não lhe ocorreu que uma Usina Hidroelétrica necessita de uns cinco anos só para a etapa de estudos de viabilidade e factibilidade e quase outro tanto para se obter um REA/RIMA que satisfaça as exigências de um desenvolvimento eticamente aceitável. E ainda requer mais alguns anos para a etapa de construção, extensão de redes de distribuição.

 O que fez o governo na área energética? Vendeu importantes empresas estatais das áreas de geração e de distribuição de energia. Durante o processo de privatização, que durou alguns anos, não houve investimentos. Houve sim, aperfeiçoamento da administração e demissão de pessoal com a finalidade de oferecer um produto atraente para os investidores. Empresas gigantes como a estadunidense AES, a Duke EC e outras, compraram geradoras e distribuidoras, algumas da máxima importância estratégica como a Eletropaulo, principal distribuidora do Estado de São Paulo. Após a entrada das estrangeiras, as tarifas aumentaram mas não houve nenhum investimento por parte dos novos proprietários. Como tampouco o governo continuou investindo foi aumentando a brecha entre a demanda e a oferta de energia. Essa falta de planejamento afeta também o abastecimento de água potável e de água para irrigação pois, as bacias hidrográficas são as mesmas para todos os casos.

 Conseqüência desse descaso, o país foi submetido a rigoroso racionamento de energia elétrica, prejudicando o desenvolvimento industrial. Tivemos apagões (black out) e teremos outros. Além disso, milhões de brasileiros das grandes cidades, como Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, estão ameaçados de passar o verão sob rígido racionamento de água. Não melhorando o clima poderá até mesmo haver um colapso no abastecimento.

  Para atender a demanda por energia a taxas de desenvolvimento atuais, seria necessário adicionar 3.650 MW nos próximos cinco anos! Isso quer dizer, segundo o economista José Pastore, que seria necessário construir uma Usina de Tucurui a cada 12 meses. Talvez esse seja o obstáculo mais difícil de superar na retomada do desenvolvimento.